O Som ao Redor (2012) - Análise crítica - Cinema
Kleber Mendonça Filho traz retrato contemporâneo realista e preciso do dia a dia suburbano de Recife. Partindo da premissa de um jogo de relações humanas entre classes sociais diferentes, o filme propõe uma crítica afiada ao mundo capitalista institucionalizado e ao modo de vida estressante e claustrofóbico que os cidadãos da capital de Pernambuco levam.
O som é um dos recursos mais importantes e bem utilizados na ambientação desse cotidiano saturado e exaustivo que os personagens têm de se sujeitar. Britadeiras, buzinas, latidos de cachorros, dentre outros ruídos, testam a paciência e elevam o grau de estresse da comunidade local.
Bia, dona de casa, sofre muito com essas interrupções sonoras, e recorre a artimanhas para aliviar o nervosismo, como quando dá um comprimido para o cão da vizinha parar de latir e não atrapalhar a noite de sono dos filhos, ou acende um cigarro de maconha para acalmar os ânimos em meio a uma tarde barulhenta de limpeza do lar. Depois, irritada com o barulho da máquina de lavar, vendo que não pode fazer nada a respeito de ter que tolerar mais um som insuportável, decide utilizar a máquina como ferramenta para relaxar. Masturba-se com o vibrar das roupas do aparelho em funcionamento.
Em contrapartida e paradoxalmente, a acústica do filme deixa muito a desejar, diversas vezes há dificuldade em ouvir os diálogos e interações dos protagonistas.
A imersão no filme começa com as primeiras cenas apresentando com clareza o abismo da diferença do modo de vida da população da antiga e nova Pernambuco. Imagens de casarões e estilo de vida rural contrastam com crianças tentando encontrar espaço para brincar em um apertado condomínio repleto de carros e blocos de apartamentos.
Os ambientes enclausurados nos quais os personagens vivem passam a sensação de que todos estão em prisões sem nem perceber. A todo o momento a fotografia foca com precisão na grade das janelas das casas e das portas, fazendo um paralelo com as celas de cadeias brasileiras. É então produzida uma atmosfera de sofrimento involuntário a todos que levam as vidas dentro de propriedades privadas. Despertando, portanto, transtornos como ansiedade e raiva entre os moradores.
A partir disso, se cria a ideia de uma falsa segurança. Os moradores querem se proteger de marginais, mas o maior bandido da região é um "playboy" que não é punido por seus crimes. Ele é neto do dono da maioria dos imóveis de todo o bairro onde se passa a história, Waldemar.
Quando uma empresa de segurança vai perguntar para seu avô, mestre do mercado imobiliário, se podem prestar um serviço remunerado de segurança na região sabendo que quase tudo ali o pertence, o idoso diz que tudo bem desde que deixem seu neto em paz, ou seja, que celebrem a impunidade com o bolso cheio de dinheiro. Levanta-se então primorosamente mais uma pauta sobre um tema intrínseco no Brasil atemporal, a corrupção.
O sangue que jorra no consultor imobiliário João, na cachoeira, é o que rebenta das pessoas exploradas por sua família patriarcal oligárquica. É o mesmo sangue do pai dos guardas da vizinhança, que buscam vingar sua morte após anos, indo atrás de Waldemar.
A linha entre a corrupção e o choque entre classes sociais e econômicas é representada de maneira muito tênue e acertada no filme. O mesmo senhor branco dono dos imóveis, é chefe de uma empregada parda que é tratada como uma espécie de escrava remunerada, como se fosse um de seus bens materiais.
Esse paralelo fica claro na hora em que ele está ao lado da porta de seu apartamento e quer abri-la, um simples gesto faria o trabalho, mas não o faz porque isso é serviço implícito de sua empregada, mesmo que ela tenha que parar suas atividades rotineiras e imediatamente descer as escadas para isso. Além disso, há um grande jogo sujo na relação entre elite privilegiada e proletariado, como no caso em que os residentes do condomínio de João discutem se tem de demitir por justa causa o pobre porteiro que tem treze anos de trabalho no prédio, apenas porque, cansado de sua rotina desgastante, acaba cochilando às vezes em seu turno.
Durante sua marcante carreira, Kleber Mendonça Filho sempre gostou de produzir obras extremamente críticas sobre nossa sociedade brasileira, seja em Bacurau, com o debate voltado para o senso de comunidade contra a ameaça estrangeira, ou em Aquarius, retratando a vida de uma senhora afetada pelo interesse financeiro de construtoras. Porém, o diretor nunca fez isso tão bem quanto em O som ao redor. Mendonça consegue provocar debates históricos e contemporâneos sobre pautas importantíssimas que fazem do Brasil o que é até hoje. Misturando temas como racismo e desigualdade, corrupção e cultura, somos agraciados com um filme reflexivo, necessário e que tenta explicar quem nós somos enquanto país a partir dos nossos problemas não resolvidos, com maestria. O cinema brasileiro moderno ganha mais um filme imperdível.
Nota: 4.5/5
Por Vinícius Galan

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