Diário de um brasileiro orgulhoso - Crônica
Decido ir a um festival de curtas-metragens realizado no Centro Cultural São Paulo. Não sei o que esperar do evento, mas como quero trabalhar com jornalismo cultural e por isso costumo frequentar esse tipo de iniciativa, lá vou eu.
Estou com meu amigo Jeremias, que na entrada do local já me diz que, da mesma forma que eu, não está tão empolgado para a experiência. Estamos cansados por ter passado uma manhã longa e exaustiva na faculdade.
Me assusto ao ver que a fila para a entrada do cinema está enorme. Nunca antes havia visto tamanha comoção para uma mostra de filmes gratuita. Ouço um burburinho enorme de papos entusiasmados, e logo meu olfato captura um cheiro de pipoca amanteigada que invade o ar deliciosamente. Vou então perguntar para alguns funcionários quais serão os curtas, e eles me dizem com orgulho que são todos brasileiros, e que aquele seria o último dia para vê-los na telona.
Esperando para entrar, minhas expectativas aumentam quando ouço a conversa de duas meninas à minha frente. Uma delas está com um sorriso de orelha a orelha e diz que deixou de almoçar para chegar a tempo do evento, e a outra com semblante igualmente vibrante comenta que será a segunda vez dela na mostra, e que chorou anteriormente, assistindo a um dos curtas.
Entro no cinema. Ao olhar ao redor, tenho a sensação de estar vivenciando algo único em minha vida. Nunca antes vi tamanha diversidade de pessoas em uma mesma sala de cinema, a maioria delas era composta por negros, pardos, nordestinos, misturada de alternativos com tatuagens e cabelos coloridos. A animação de cada um deles me contagiou de tal forma que toda a exaustão que eu possuía sumiu instantaneamente.
Foi então que caí na real: Todas as sessões de cinema que frequentei na vida eram majoritariamente compostas por cidadãos brancos, de classe média, e que uma ou duas pessoas destoavam disso, apenas. O que me fez refletir sobre o quanto o acesso ao cinema no Brasil é restrito a quem tem condição de frequentar shoppings e ambientes privados, e a importância dessa iniciativa pública gratuita. Um retrato da sociedade canarinho contemporânea, onde o acesso cultural é reservado a uma elite de privilegiados.
Os curtas brasileiros tratam de temas como racismo, sexualidade, tradição musical, amor familiar, irmandade e manifestações culturais periféricas. Todos eles com particularidades nacionais. Ao final de cada um, eram aplausos atrás de gritos de euforia do público. Minha alma está preenchida de tremendo júbilo.
Me sinto extremamente emocionado com essa pluralidade brasileira, tanto na audiência quanto nos temas da tela. Percebo que involuntariamente uma lágrima escorre do meu olho esquerdo. A cartase coletiva toma conta do meu indivíduo.
Naquele momento percebo que nós possuímos uma riqueza tão grande, nosso povo e cultura são tão bonitos e especias, que não existe político ou falso líder que irá acabar com isso. Nunca as palavras: "Apesar de você, amanhã há de ser outro dia", de Chico Buarque, fizeram tanto sentindo quanto agora.
Ao sair, o embasbacamento com a beleza brasileira continuou. Há um mês atrás eu estava na Irlanda, agora passando por um viaduto, me peguei admirando nossa selva de pedra, nossa confusão organizada. Meus olhos brilharam de admiração à paisagem urbana paulistana.
Nosso Brasilzão é lindo demais!
Por Vinícius Galan

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