Coringa (2019) – Análise crítica
(CONTÉM SPOILERS)
A espetacularização da instabilidade mental
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| (Foto: Distribuição / Warner Bros. Pictures) |
Fui assistir ao Coringa. Estava muito ansioso e empolgado para ver em tela o premiado e polêmico filme vencedor do prêmio máximo em Veneza. O hype já veio bem antes da estreia, desde o primeiro trailer já sentia que aquele filme daria o que falar.
Os primeiros takes mostram um protagonista sofrido, desgastado, de dar muita pena. Se passam uma hora e meia e presenciamos angústia e agonia aos montes com Joaquin Phoenix se contorcendo na sua pele puro osso. A sociedade parece tê-lo destruído pouco a pouco, e isso é diretamente correlacionado com as manifestações de seus transtornos mentais.
Arthur Fleck parece preso a um comportamento infantil, visto a quantidade de abusos que sofreu na infância, é como se ele ainda não tivesse atingido a maturidade, só enxergamos um homem adulto depois que ele mata os três, no trem.
Percebo que eu e o público à minha volta criamos um apreço muito grande ao personagem, a ponto de desejarmos que Fleck se vingue do sistema que tanto o insultou e abusou. Quando ele esmaga a cabeça do ex-colega de trabalho na parede, e no momento seguinte abre a porta para o anão que está em choque, ainda falando: "Você foi o único que nunca me destratou, eu não faria mal a você". Fica difícil não criar empatia a um coitado que se rebelou contra o colega mau caráter. É aberta a interpretação de que aquilo seria uma atitude justificável, por tudo que ele passou.
No plano seguinte ele aparece na escada, todo pintado e caminhando imponente, a câmera filma de baixo para cima com uma música cativante ao fundo, sua silhueta grandiosa. É causado um clima de júbilo no cinema. Quando ele começa a dançar na escada então, é como se a audiência atingisse seu êxtase máximo, observo até gente tirando foto, como se a figura de um psicopata esquizofrênico assassino fosse heroica, um lobo solitário e mítico na luta contra a elite dos poderosos que deixaram a sociedade doente. E esse tipo de glorificação só aumenta com as cenas finais do filme.
E mesmo quem vê em Arthur Fleck um niilista que só quer se vingar da mãe e dos que o fizeram mal, que não tem nada a ver com corrupção e raiva contra a sociedade, é desmistificado com o discurso político que ele dá no programa de auditório do Murray; O que se observa, portanto, é uma confusão de quem é o real coringa. A inconsistência é nítida.
Coringa não incita o crime, nem provoca os "incels" a agirem. É um retrato irresponsável e inconsequente de uma pessoa extremamente depressiva e doente. Será que é dessa forma que se propõe a grandes públicos uma reflexão a todos aqueles que são esquecidos, abusados e bulinados por nós? Ou o cinema tem como papel apenas entreter? Todd Phillips responde trazendo à tona a romantização e glamourização do doente mental revoltado, com toques de humor sombrio. Se encontra na abordagem errônea de temas delicados a forma de criar entretenimento épico.
Fotografia setentista, artística impecável, referências clássicas, como Táxi Driver e O rei da comédia (ambos de Scorsese), ritmo inquietante e vibrante, atuação inesquecível de Phoenix, mas cabe a nós decidirmos, isso tudo vale a pena quando o filme até tenta dizer algo, mas de maneira leviana e inadequada? Coringa carrega, na sua essência, um espetáculo visual e sonoro transvestido de comentário social falho e imprudente.
Nota: 2,5/5.
Por Vinícius Galan

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