Pranto desconhecido - Crônica
Lágrimas. É isso o que percebo escorrendo pelo rosto de uma senhora. Me encontro no ônibus e ela também, porém estou na parte da frente e ela, na de trás. Apesar da distância considerável, sou capaz de, com clareza, vê-la chorar. Choro esse que escapa discreta e silenciosamente, numa tentativa malsucedida feita por ela de não chamar a atenção dos outros passageiros.
Gostaria de entender os motivos que levaram essa mulher a passar por tal situação. “Recebeu a notícia do falecimento de algum familiar? Ou talvez de um amigo próximo? Acabou de ter uma discussão com o cônjuge? Está passando por uma crise financeira?”. Essas são algumas das inúmeras indagações que passam pela minha mente. No entanto, um questionamento se destaca: “Por que ninguém faz nada em relação a isso?”.
É possível notar inúmeros olhares, além do meu próprio, em direção a ela que, envolta em sua melancolia, aparenta não percebê-los. Sinto que há um desconforto no ar e as diversas pessoas que nela repararam passam a fingir que não o fizeram. Até as que estavam próximas a ela não tomam qualquer tipo de atitude.
Elas preferem voltar sua atenção para qualquer coisa que as consiga distrair dessa situação desagradável. Celulares, livros e pensamentos são capazes de cumprir essa função, porém, não o suficiente. Eventualmente, as flagro dando rápidas olhadas para a mulher. Tenho a impressão de que anseiam pelo momento em que essa provação irá finalmente acabar.
Como que por coincidência, a senhora recolhe toda a sua tristeza, seca as lágrimas, tenta, mas não consegue colocar um sorriso em seu rosto e desce do ônibus. Isso, ao que me parece, faz espalhar um certo alívio geral entre os passageiros.
Eles não precisam mais se preocupar em simular que não a viram no ápice de seu sofrimento. Agora, só têm de lidar internamente com o fato de que nada fizeram para tentar ajudar. Nenhum “A senhora está bem?” ou “O que aconteceu?”. Nenhuma palavra reconfortante em um momento tão necessário. Mas o que posso eu dizer, se também nada fiz?
Por Augusto Ferreira

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