Das celas de Piracicaba às salas da USP
A surpreendente história de um ex-detento que entrou na USP superando a dificuldade de acesso à educação e emprego após a detenção no Brasil
Mulherengo, viciado em drogas, bebidas e pai de Nathalia, uma mocinha que até então tinha 3 anos de idade, um tanto quanto distante do pai. O carioca Ary Júnior vivia a vida intensamente no auge de seus 24 anos sem pensar nas consequências que suas más escolhas poderiam lhe trazer. Aos 22, a primeira experiência com o crime. Mesmo sendo um sujeito de bom caráter, gentil e brincalhão com todos, péssimas influências o levaram a um patamar jamais esperado.
Era um rapaz comum, vindo de uma criação conservadora, à moda antiga. Sua mãe era testemunha de Jeová e lhe privou de muitas coisas. Recém completados 18 anos, Ary perde sua mãe, o primeiro fato rumo ao fundo do poço. “Quando perdi a minha mãe, foi o momento que me vi sozinho no mundo, me senti livre para experimentar um pouco de tudo, ali foi realmente o início”. Ary conta que perder a mãe ainda muito jovem foi um fator determinante para seu envolvimento com o crime.
“Era outubro de 1987, um dia como qualquer outro, fui abordado na Rua Augusta, a proposta de um colega era roubar um toca fitas, algo relativamente simples que se tornaria um episódio muito maior em minha vida. A partir do roubo do toca fitas, me envolvi em outros diversos esquemas”. Com essas palavras, no auge de seus 50 anos, Ary Júnior detalha o seu início no crime, há mais de 30 anos.
Em 20 de agosto de 1994, foi condenado a seis anos e dois meses de reclusão por ser pego em flagrante dirigindo um carro roubado. Mesmo sem ter a sua sentença confirmada, passou um ano e meio no sistema prisional de Piracicaba, interior do Estado de São Paulo. O período em que esteve preso foi um dos piores em sua vida. “Fiquei em uma cela com mais de 20 colegas, com três metros por quatro, que cabiam no máximo 5 pessoas”. Enfatiza o quão doloroso foi ficar preso: “Quando chovia as paredes escorriam água, todos os colchões ficavam molhados e nós presos dormíamos todos amontoados para fugir do frio”.
Júnior bem que tentava ter um bom comportamento diante de carcereiros e policiais, mas os problemas com outros presos eram constantes. Rebeliões, brigas e até homicídios foram presenciados dentro da detenção, testes para regime semiaberto negados, transferências de penitenciárias e pouquíssimas visitas de seus familiares, somente a ex-mulher. Foram 6 anos agonizantes, mas quem tinha tudo para piorar, saiu melhor no final do ano 2000.
Quatro anos após sair da prisão, sua inteligência permitiu que pudesse se reerguer. Como representante têxtil conquistou casa, carro, boa alimentação e dinheiro, tudo que um homem precisava para viver bem. Mas o dinheiro não lhe trouxe apenas benefícios, o fácil acesso à drogas, bebidas e mulheres lhe tiraram tudo o que tinha. Em pouco tempo, já havia experimentado todos os tipos de drogas que poderia, até mesmo cocaína e pedras de crack, que o levaram ao fundo do poço pela segunda vez na vida.
Mesmo com diversos problemas foi dono de dois estabelecimentos em Tatuí, interior de São Paulo, mas a dependência química outra vez lhe tirava suas conquistas. Dívidas acumuladas e o fim de um relacionamento fizeram com que a droga se tornasse sua melhor amiga.
Morou de favor por muito tempo em diversos lugares, porém o momento de maior instabilidade foi na Zona Leste de São Paulo. A Cidade Tiradentes fez com que ficasse ainda mais distante da reabilitação, o uso de drogas era constante. No extremo leste de São Paulo, Ary viveu momentos tão ruins quanto os de sua prisão, porém foi lá que iniciou seu gosto pelos estudos.
Em 2015, se inscreveu em um curso preparatório para concurso público, no qual teve acesso ao básico de português, matemática, história e geografia. Os estudos não foram suficientes para amenizar a dependência química, foi quando por decisão própria resolveu buscar ajuda com sua ex-esposa, Suelly.
Passou a morar na casa dela e seu apoio foi determinante para que ele conseguisse se afastar da balbúrdia que o rondava na Cidade Tiradentes. Foi então que teve vontade e tranquilidade para se dedicar aos estudos. Se esforçou para parar de beber, fumar e principalmente se libertar da dependência química. Após muito esforço, Ary consegue se manter longe das drogas por um bom período.
Começou a trabalhar como motorista, com salário fixo, entretanto o baixo salário e o tempo de trabalho não o deixaram na sua zona de conforto, ele queria mais do que isso. Foi quando resolveu voltar a estudar para se preparar para concursos públicos e para o Enem.
Estudou por um curto período de tempo, cerca de 6 a 7 meses, tudo por conta própria, com alguns livros do ensino médio que havia ganhado, e prestou o vestibular. Por possuir uma inteligência muito acima da média, teve facilidade de estudar sozinho e sem a ajuda de nenhum professor. Sua determinação era impressionante, pegava os livros e passava tardes se debruçando em contas, textos e exercícios.
Em janeiro de 2016, recebeu uma das melhores notícias de sua vida, Júnior alcançou 740 pontos no Enem, com destaque para Matemática, 790 pontos, e Redação, 880 pontos. Sua pontuação lhe concedeu duas vagas, uma para o curso técnico de automação industrial no Instituto Federal do Brasil e outra para pedagogia na Universidade de São Paulo.
Após ouvir conselhos de professores, tomou a decisão de estudar pedagogia pela USP. Ary Júnior também foi o primeiro aluno da história da universidade a conseguir uma vaga através do Enem em 2016. Sua conquista é uma exceção perto da grande maioria dos vestibulandos que precisam de cursinho para conseguir passar nas melhores universidades, e mais ainda quando se trata de ex-detentos. Se são raros os casos dos que chegam a terminar o ensino médio, os que entram em faculdades são ainda mais incomuns.
Sala de aula da Universidade de São Paulo (USP)
Quando começou a estudar na USP, a pauta de preconceito dos colegas com ex-detentos foi ofuscada por seu desempenho notável, deixou que suas notas falassem por si mesmo. Conseguiu obter uma média geral de respeito, 8.9 na soma de todas as matérias, fazendo com que mais uma vez suas qualidades fossem evidenciadas.
Sua história de vida é inigualável, esteve próximo de seguir um caminho sem volta por diversas vezes, mas nunca perdeu as esperanças de alcançar seus sonhos. Lutou contra as drogas por anos, estudou durante meses e hoje está a dois semestres de se tornar um professor, formado pela melhor universidade brasileira.
Projeto “Começar de Novo”
Assim como Ary Júnior, muitos ex-presidiários encaram diversos desafios quando voltam às suas vidas cotidianas, têm de conviver com pré-julgamentos o estereótipos por parte dos outros. Se tratando de conseguir emprego é ainda mais difícil, visto que além do obstáculo de carregar um estigma de ex-detento, o mercado brasileiro está em crise e possui mais de 13 milhões de cidadãos desempregados. Pensando nisso, surge o projeto “Começar de Novo”, uma iniciativa que tem como objetivo a sensibilização de órgãos públicos e da sociedade civil para que forneçam postos de trabalho e cursos de capacitação profissional para presos e egressos do sistema carcerário. Visando promover a cidadania e consequentemente reduzir a reincidência de crimes.
Para isso, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) criou o Portal de oportunidades. Trata-se de uma página na internet que reúne as vagas de trabalho e cursos de capacitação oferecidos para presos e egressos do sistema carcerário. As oportunidades são oferecidas tanto por instituições públicas como entidades privadas, que são responsáveis por atualizar o Portal.
Segundo os dados divulgados pelo CNJ, cerca de 3.064 vagas já foram preenchidas. Hoje há 1.800 vagas disponíveis. Vale mencionar que o STF já contratou aproximadamente 20 ex-detentos e o CNJ, 15 ex-detentos.
Apesar de servir como grande ajuda para muitos, a iniciativa atinge uma pequena margem de ex-presidiários, visto que o Brasil é o terceiro país com mais detentos no mundo, de acordo com o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen). Os dados foram coletados em 2015 e 2016, a população carcerária em 2015 foi de 698.618, e de 726.712 em 2016. O Brasil ultrapassou a Rússia (646,1 mil) e só ficou abaixo de Estados Unidos (2,14 milhões) e China (1,65 milhão) no número de detentos.
Panorama de ex-detentos no Brasil e a opinião de um filósofo
Uma pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), feita em 2015, mostra que a cada quatro ex-presidiários, um volta a cometer crimes no prazo de cinco anos. Essa taxa equivale a quase 25% do total de presos. A série Prisões Brasileiras – Um Retrato sem Retoques, do Repórter Brasil, transmitida em 2014 pela TV Brasil, mostrou que apenas 20% dos presos que são libertados conseguem encontrar um emprego. Essa taxa diminui ainda mais quando se trata de estudo: apenas 8,6% conseguem voltar a estudar. Segundo dados do Sistema Integrado de Informações Penitenciárias (InfoPen), do Ministério da Justiça, em 2012 o número de ex-presidiários no Brasil fazendo graduação era de apenas 0,02 por cento. O Conselho Nacional do Ministério Público define o sistema penitenciário no Brasil como caótico.
Segundo o professor universitário de filosofia da Universidade Anhembi Morumbi, Luis Paulo Neves, o preconceito sofrido por ex-presidiários no Brasil está relacionado com um caráter excludente de nossa sociedade, tanto economicamente quanto racial. O discurso “bandido bom é bandido morto”, reproduzido em grande escala por mazelas da população, contribui muito para uma estereotipação negativa.
Na visão dele o problema que faz com que as pessoas entrem para o mundo do crime é sistemático, a violência começa na base, no modo em que grande parcela da população é obrigada a viver, sem oportunidades e boas condições de vida.
Sobre o sistema penitenciário do Brasil, o professor não esconde seu descontentamento. Expõe a opinião de que por existir uma violência muito grande nos presídios, o país está no oposto dos que recuperam os cidadãos que cometem delitos. Eles acabam saindo ainda piores do que entraram, e no período em que cumprem pena, há muitos casos de presos sendo aliciados ou obrigados a fazer parte de máfias, que tomam conta. Diferente de outros países, que apesar de punirem, também reabilitam realmente os detentos.
Por Gustavo Neri e Vinícius Galan
Por Gustavo Neri e Vinícius Galan

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