A Virada da Representatividade
Na programação da Virada Cultural no Sesc Pompéia, o Instituto Feira Preta trouxe uma amostra de seu trabalho para a Rua Central da unidade, no domingo, 19 de maio. Expositores e empreendedores da estética negra colocaram o público em contato com as mais variadas formas de ancestralidade africana. O instituto é uma organização social sem fins lucrativos, criada em 2002, que atua na promoção e no desenvolvimento sociocultural da comunidade negra e do empreendedorismo afro-brasileiro em nível nacional.
A parceria Sesc-Virada Cultural aborda o tema da representatividade negra na unidade Pompéia (Foto: Micaella Lacava)
Adriana Barbosa (41), empreendedora e fundadora da Feira Preta, não esconde a alegria em participar deste momento: “Achei isso histórico. Pensar em uma programação negra, a ideia e a possibilidade de ocupar esses espaços. Fiquei lisonjeada, no sentido de a gente se ver, os artistas e o público, ter esse encontro das potências, especificamente no momento político-econômico que estamos agora”.
Adriana Barbosa, fundadora do Instituto Feira Preta (Foto: Micaella Lacava)
A barraca Abayomi Falero expôs aos visitantes as tradicionais bonecas feitas de tranças e nós, a partir de retalhos de roupas. Sem costura alguma, as bonecas não possuem demarcação de olho, nariz nem boca, para favorecer o reconhecimento das múltiplas etnias africanas. A artista e artesã Caroline Falero (35) acredita que iniciativas como a do Sesc maximizam a visibilidade de mulheres empreendedoras, assim como ela: “A gente percebe que tem uma falta de representatividade e desequilíbrio social e econômico.”
Caroline: As bonecas, símbolo de resistência, ficaram conhecidas como Abayomi, termo que significa “encontro precioso” (Foto: Micaella Lacava)
Há cinco anos no mercado, a Conspiração Libertina é uma marca ativista que visa empoderar mulheres, LGBTs, negros e outras chamadas minorias. Gabriela Alves (34), uma das sócias, conta: “Criamos a marca para conversar, para abrir esta porta de conversa, despertar a curiosidade através de um desenho diferente, da ironia e do humor”. Reunindo um time de representantes, as “libertinas” circularam pela unidade, tirando dúvidas sobre o movimento feminista, as bandeiras do movimento negro, além da aplicação de tatuagens temporárias.
Gabriela: “Buscamos instrumentalizar indivíduos em suas reivindicações e possibilitar que sejam agentes de transformação em qualquer ambiente” (Foto: Micaella Lacava)
No setor culinário, a Baobá Comedoria apresentou aos visitantes uma nova opção: a gastronomia africana. Geronimo Vinicius (25), também integra o time de empreendedores da Feira Preta e ressalta a importância de a parceria Sesc-Virada Cultural ter como tema a representatividade: “É importantíssimo e calhado com o momento, ter mais gente abordando o tema do movimento negro e poder ter um lugar que abre espaço para esses assuntos”.
Geronimo (centro) e equipe da Baobá Comedoria (Foto: Micaella Lacava)
Além disso, a programação da Virada Cultural no Sesc Pompéia ofereceu oficinas criativas, apresentações teatrais, bate-papos, dança e shows. A exemplo da dançarina e coreógrafa Vitória Nagô, que importou da Jamaica o estilo musical e movimento cultural Dancehall. “Assim como o Brasil, a Jamaica é extremamente machista, homofóbica e misógina”, afirma ela. O Dancehall Queen é uma vertente feminina do movimento e representa a luta das mulheres contra os extremismos. “É o amor pelo movimento, pelo meu corpo”, e a oportunidade para Vitória convidar os transeuntes para viverem esse movimento cultural através da dança.
“A mão que bate o tambor é feminina”
A letra da compositora Camila Trindade encerra o espetáculo a céu aberto do coletivo Samba Negras em Marcha, que durante sua apresentação concentrou a maior parte do público presente no Deck Solarium. Composto por artistas visuais, cantoras, dançarinas, atrizes, compositoras e batuqueiras, o grupo anuncia o início do espetáculo ao som da voz da intérprete Luzinete Borges: “Para cantar, para se curar, para comemorar e para mostrar que a mulher pode estar em qualquer lugar que ela queira”.
O coletivo Samba Negras em Marcha no Deck Solarium do Sesc Pompéia (Foto: Micaella Lacava)
A cantora mineira, radicada em São Paulo, Tâmara David (36), diz que a Virada é uma iniciativa importantíssima que a cidade deve cuidar para manter. “Nas últimas edições tem-se dado uma visibilidade maior à produção da música preta e cada vez mais eu tenho visto mulheres tocando nesses palcos.”
Tâmara afirma que a roda de samba tem como característica seu papel político-social e faz questão de torná-lo visível ao discuti-lo com o seu público, como fez ao cantar sobre a vereadora carioca assassinada Marielle Franco. Cinthia Abreu (39) trabalha no núcleo gestor da marcha e comenta: “A questão da Marielle é uma pauta de todas as mulheres, principalmente as mulheres negras, pela bandeira que ela carregava. Para nós é uma bandeira importante, a gente tem que continuar com essa luta e dar essa visibilidade. Em marcha, também exigimos justiça por Marielle”.
A 15ª edição da Virada Cultural aconteceu nos dias 18 e 19 de maio, pela primeira vez em formato descentralizado. As 32 Subprefeituras da cidade de São Paulo contaram com mais de 1.200 atividades gratuitas, distribuídas em 250 pontos espalhados pela capital, durante 24 horas. O festival teve público de cinco milhões de pessoas, segundo balanço divulgado pela Prefeitura.
Por Ariane Oliveira e Micaella Lacava


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