Sociedade das Bolhas - Crônica


Cá estou, disposta em uma poltrona do Starbucks, rodeada por estranhos absortos em suas conversas e estudos, há muitas bolhas dentro de um mesmo cômodo. Chove mansamente. Ouço o jazz da música ambiente. Vozes distintas e burburinhos atabalhoados atingem meus ouvidos.

Pela janela panorâmica vejo um mar de bolhas. Pessoas, carros, ônibus, ambulantes, prédios e árvores, é impressionante como tudo cabe aqui. Mas uma bolha em especial capta a minha atenção: um garoto sentado sob um cesto de lixo.

Seus trajes surrados e uma velha mochila absorvem a chuva que não atinge sua pele. Ele balança seus pés como uma criança travessa e serena. Os ônibus param e os passageiros desembarcam em suas bolhas exatamente a sua frente, o menino é invisível para eles.

Penso: "Eu ou qualquer alma passando por essa avenida vale mais que esse garoto?”.

Ele se levanta e gesticula como se estivesse a alçar voo, depois força os punhos como se estivesse com raiva ou fosse um super-herói. Acho que se acostumou a ser invisível. Eu o vejo atravessar, fingir dirigir na ciclovia, depois o perco de vista.

Mais tarde vou comprar maçãs porque tiram o sono e lembrei que ajudava a me manter em pé no semestre passado. Havia um homem na entrada esperando que alguém lhe desse algo para comer, mas não abordava ninguém, falava com os olhos.

Ao sair da quitanda, ele ainda estava lá. Eu o percebo acariciar uma das laranjas presente nos sacos da prateleira lateral, não sei se a fome gritava por suas mãos ou se o detiam do instinto de um furto iminente.

Simultaneamente, a opulenta letra de “7 rings" ressoava em meu ouvido esquerdo, “...I see it, I like it, I want it, I got it…”.

Enquanto há bolhas que veem, gostam, querem e compram, há outras que recorrem ao furto para terem assegurado o direito à alimentação.

Sou uma bolha que observa, passível de estouro. Me pergunto se outras bolhas transeuntes também são ou se a exclusividade é minha.

Viver bem na bolha da indiferença à miséria no mundo é felicidade? Não. É bolha de privilégio, porque bolhas de privilégio cegam e é da natureza do privilégio cegar.

Por Ariane Oliveira

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