Com temática brasileira, "Cargas D’Água - Um Musical de Bolso" ganha Prêmio Bibi Ferreira

O prêmio de “Revelação”, recebido pelo diretor Vitor Rocha, é o primeiro conquistado por um musical independente

Na noite de 25 de setembro, Vitor Rocha recebeu o prêmio de revelação naquele que é considerado pela crítica como o “mais importante evento do teatro musical no Brasil”: o Prêmio Bibi Ferreira, o primeiro exclusivo de teatro musical brasileiro. Rocha também dirigiu e roteirizou o musical, que ainda concorreu ao prêmio de melhor música original, mesmo sendo produzido de forma totalmente independente.

Da esquerda para a direita, Victoria Ariante, Gustavo Mazzei, Ana Paula Villar e Vitor Rocha, demonstram a “brasilidade” de Cargas D’Água (Foto: Victor Miranda)

O ganhador do prêmio não escondeu seu apreço pela vitória e agradeceu com um poema: “Uma história só termina quando param de contar e um povo só morre quando para de cantar. Que a gente aprenda logo que a gente é o que a gente canta e canta o que a gente é, porque só assim a gente vai ser livre para ser e cantar o que a gente bem quiser. Que cada vez mais a gente possa dizer no palco o que de fato diz o coração, se for assim eu tenho certeza que muitos poetas ainda hão de ser revelação”. 

O Prêmio Bibi Ferreira - homenagem à “Diva dos palcos” - criado em 2011, surgiu da troca de informações entre a Marcenaria de Cultura, a Broadway League e a American Wings, responsáveis pela realização do prêmio Tony, e a sociedade teatral de Londres, responsável pelo prêmio Olivier.

O ESPETÁCULO

Cargas D'Água (inédito, autoral e regional brasileiro) tem curta duração e conta a história de um garoto mineiro, que ao perder sua mãe, esquece o próprio nome, pois seu padrasto só o chama por “Moleque”. Em sua existência melancólica, Moleque faz amizade com um peixe (Sr. Cargas D’Água), levando-o à uma missão inesperada: levar seu novo amigo para o mar. Em sua jornada, encontra distintos personagens, indivíduos com suas próprias histórias que o ajudam a enfrentar os maiores medos do homem. 

Sem patrocínios, o elenco composto por Vitor Rocha, Ana Paula Villar, Gustavo Mazzei e Victoria Ariante encontrou nas redes sociais ajuda para a divulgação do espetáculo.

Elenco em ação durante a peça (Foto: Victor Miranda)

As inspirações do elenco são predominantemente nacionais. Nomes como Zé Henrique de Paula (diretor de outros trabalhos realizados no Núcleo Experimental), Companhia do Tijolo, o elenco da Barca dos Corações Partidos e dos Grupos Galpão e Corpo “se mantém preservando a cultura brasileira”, de acordo com Victoria. Entretanto, Bob Wilson e Pina Bausch são algumas de suas referências internacionais. O grupo não esconde a influência que recebe da estrutura do teatro musical americano, mas esclarece, que a criação continua sendo autoral.

A principal característica de peça é a “brasilidade”. A simplicidade cultivada nos caixotes de madeira que servem de cenário, a presença marcante de dialetos e regionalismos e o lugar cativo que a bandeira brasileira possui no palco denotam o nacionalismo e o patriotismo pretendidos. Em qualquer lugar do mundo em que essa história seja contada, será reconhecida como brasileira. Além do aspecto universal, configurado pelo fato de que cada ato caracteriza uma forma de sentir medo, inerente ao ser humano, facilitando a identificação do público.

Para o elenco, o princípio máximo dessa premiação é o legado que deixam: saber que pessoas que juntaram tudo o que tinham para realizar um trabalho foram reconhecidas, encorajando outros artistas a saírem do escuro e a produzirem também. E, apesar de expressarem gratidão pelo reconhecimento de seu trabalho e pela vitória do teatro independente, sabem que a tarefa de levar pessoas ao teatro ainda se faz longínqua.

Enquanto diversos eventos teatrais a preços acessíveis não são divulgados, a mídia prioriza espetáculos de renome e grande porte como “O fantasma da Ópera”. Muitas vezes, um espetáculo como o Cargas D’água não tem estrutura para fazer coisas tão grandes, mas o elenco espera que esse cenário mude no futuro e a qualidade dos projetos seja levada em consideração.

Por Ariane Oliveira, Augusto Ferreira, Beatriz Fontes, Victor Falkemback e Vinícius Galan

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