Avenida Paulista: Um palco de histórias
De origem humilde, Lindomar, quando criança, produzia violões de papelão e utilizava muito de sua imaginação para fingir que os tocava. Fazia isso como forma de escape para o fato de sua mãe ser alcoólatra e seu pai tê-lo abandonado. Ganhou seu primeiro violão verdadeiro quando foi internado em decorrência da paralisia infantil. Uma das freiras que trabalhavam no hospital lhe fez a seguinte pergunta: "Você vai ficar aí parado olhando para o céu?". Queria tocar piano, mas tudo que a freira conseguiu foi o violão que pertencia ao seu falecido irmão.
Nasceu em 1965, época próxima ao lançamento da música “Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, a primeira música que aprendeu a tocar. Foi ensinado por um homem cego, que tocava violão e que teve a paciência de lhe ensinar "nota por nota, timtim por timtim".
Anos mais tarde, acabou preso durante o período da Ditadura Militar por cantar músicas de protesto. Fato ocorrido em Barueri enquanto cantava “Mamãe eu não queria”, do Raul Seixas, letra essa a qual destaca o seguinte trecho: “É uma bela carreira, mas eu não tenho a menor vocação. Eu não quero ser sentinela que nem cachorro vigiando o portão”, aludindo à carreira militar. O homem que outrora teve sua liberdade privada por cantar o que sentia, hoje canta a céu aberto, para quem quiser ouvir.
Andando pela Avenida Paulista, é com facilidade que se encontra um senhor de 53 anos tocando seu violão e soltando a voz. Velho Blu, nome artístico de Lindomar Lima dos Santos, carrega consigo uma placa onde pergunta: “Será que eu almoço hoje?”. Desempregado e sem receber aposentadoria, é da música que tira seu sustento: "Tiraram a minha aposentadoria e me vi pedinte. Então, eu vim para a rua e não troco a rua por nada nesse mundo. Tem gente que xinga, tem gente que chora, tem gente que vibra".

"Velho Blu" tocando na Avenida Paulista (Foto: Ariane Oliveira)
Relata que, há 20 anos, sonhou que tocava um violão azul na Avenida Paulista: "A partir desse sonho, eu me preparei para estar na rua, e hoje, eu tenho um repertório de 700 músicas na ponta da língua". Canta desde Roberto Carlos a Raul Seixas, restringindo-se somente à músicas brasileiras. Certa vez, cantou uma música internacional e uma espectadora o pediu para que traduzisse a letra, porém não soube fazê-lo. Após o ocorrido, ficou traumatizado: “Mesmo se eu souber que está certo, vou ficar sempre com medo de cantar”.
Com o passar dos oito anos em que canta na avenida, aprendeu quais músicas tocar para conseguir dinheiro, mas quando o dia não está propício, tem toda a liberdade para escolher a próxima melodia a ser entoada.
Em uma de suas performances, uma psicóloga iniciou uma conversa com Lindomar e, ao passo em que ele contou sua história, relatou que possuía distúrbios mentais. Ela lhe ofereceu um tratamento gratuito, mas ele não poderia se ausentar de nenhuma sessão, do contrário, teria de pagar pelo dia em que não estivesse presente. O tratamento teve duração de um ano e Lindomar compareceu a todas as sessões. Atribui à Paulista o fato de estar mais leve e feliz. Toda a sua renda provém daqui. “Eu nunca vesti uma roupa nova. Sempre são os outros que me dão”. “Esse relógio, eu ganhei na Paulista. Essa calça, eu ganhei na Paulista. Esse sapato, essa camisa, esse chapéu, eu ganhei na Paulista.”
Para ele, sua música “tem que trazer harmonia, não pode trazer desavença”. Se lhe comunicam que está incomodando, prefere pegar seu violão, seus outros materiais de trabalho, ir para um outro local e tocar onde é bem-vindo. Fica abismado quando lembra que já chamaram a polícia para que se retirasse: “A gente, aqui na rua, lida com todo tipo de ser humano: gente bacana, gente ignorante, gente vazia. A pessoa que não gosta de música, pra mim, é doente”.
Pluralidade musical
Por toda a sua extensão de 2,8 quilômetros, a Avenida Paulista abriga, assim como Lindomar, inúmeros artistas que a vêem como um palco para a exibição de sua arte: a música. É o lugar onde todos os gêneros se misturam: MPB, samba, jazz, entre muitos outros, compõem a trilha sonora de um dos maiores centros financeiros e culturais do Brasil.
A banda Théo Com Sétima é um coletivo de músicos atraídos pelo simples desejo de tocar, contendo instrumentistas diferentes para variados eventos. “A gente gosta de tocar e a gente gosta de tocar com todo mundo. Funciona assim, é um coletivo por ser totalmente aberto, quem quiser fazer parte é só chegar”, explica Danúbio Pantoja, 33, saxofonista, mentor e criador do conjunto.
Vindo de Marabá, no Pará, mora em São Paulo há 7 anos e formou a banda há 5. Começou tocando sozinho nas noites, o que lhe proporciona ainda hoje conhecer outros músicos como ele, bem como receber indicações de candidatos em potencial para o grupo.
Banda Théo Com Sétima em uma das esquinas da Avenida Paulista
Escolheu tocar na Paulista devido ao grande fluxo de pessoas: “Aqui, tudo se mistura. Gente que vem para São Paulo por qualquer motivo, acaba passando na Paulista em algum momento”. Estar ali, para ele, é algo que vai além da quantia que termina em seu bolso: “Não é só a grana que cai na caixa, é ter um contato com a galera, só de a pessoa passar e sorrir porque uma música tocou ali na alma dela, é maravilhoso”.
Quando não está lá, Nalla Américo, 23, vocalista da banda há 2 anos e meio, sente falta do local. Acha que os artistas que querem ter um contato verdadeiro com seu público deveriam experimentar tocar na rua: “É na rua que você se sente mais livre para fazer o que você gosta de fazer e você não está obrigando ninguém a te ouvir, se as pessoas pararam é porque realmente faz sentido o que você está fazendo”.
Um convite a cada esquina
Na esquina da Rua Padre João Manuel com a Avenida Paulista, um marceneiro aposentado de 79 anos pode ser encontrado cantando suas histórias. Gildo Rogério, nome artístico para Geminiano de Souza Neto, vem de Itabuna na Bahia e apresenta a composição que descreve a história de sua chegada, com 18 anos, à São Paulo:
“Nem sequer me preparei, procurei um lugar melhor para se viver. Aqui cheguei sem experiência e documentos então parei: me alistei, ai, me alistei! No segundo esquadrão do Ibirapuera, que vidinha boa era aquela”.
Morou num quartel do 2º Esquadrão de Reconhecimento Mecanizado do Ibirapuera e sua passagem pelo Exército durou precisamente 11 meses e 24 dias. Participou da Revolução de 64, golpe militar que encerrou o governo do presidente democraticamente eleito João Goulart. Gildo, porém, era favorável à sua permanência.
Três vezes por semana, acorda cedo, toma seu café, vai bater um papo com os amigos e vem dirigindo do Capão Redondo até a Paulista: “Eu passo mais tempo aqui do que em casa”. Canta na avenida há quatro meses: “O que rende aqui é pouco, mas não estou interessado nisso porque sou aposentado, fico feliz porque eu fico mostrando o meu trabalho”.
Gildo foi sargento, revolucionário, operário, jogador de futebol, e a quem lhe dispõe alguns minutos de atenção ele indaga: “Quer ouvir essa história? ”.
Por Ariane Oliveira e Augusto Ferreira

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